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Palavras que perdem o sentido. O trem que vai e vem levando nossas paisagens.

O texto que explica os objetivos deste blog foi escrito em 2015, após o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana. Nem imaginávamos que em pouco tempo ele estaria desatualizado e as informações seriam muito mais trágicas e dolorosas. Quase 300 mortos em uma avalanche de lama de mais uma barragem de rejeitos que se rompeu, em Brumadinho, em 25 de janeiro de 2019, às 12h28. E enquanto reescrevemos sabemos que outros municípios vivem seus dramas, como Congonhas, Macacos e, agora mais grave, Barão de Cocais. Pode ser que, enquanto você lê este texto, as informações já estejam novamente desatualizadas. A mineração, sua lógica destruidora de vidas, águas e paisagens, suas barragens assassinas sempre prestes a se romper exigem de nós, mineiros, novos verbos, novas posturas, novas palavras para que um outro futuro seja viável. Vamos rompendo paradigmas que nos prendem à exploração de nossa identidade e nosso solo.

ROMPENDO A LAMA da desinformação e da manipulação, ROMPENDO A LAMA a dependência da mineração, ROMPENDO A LAMA da morte e da destruição.

Abaixo, o texto original que falava apenas de Mariana. Ele permanece do mesmo jeito que foi escrito porque é preciso preservar nossa memória e se indignar com as mudanças dos números e do cenário diante da máquina de morte e destruição chamada mineração e a forma como ela impacta comunidades, rios, aquíferos, serras e a biodiversidade.

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O rompimento no dia 5/11/2015 da barragem de rejeitos do Fundão, da Samarco/Vale/BHP, localizada no subdistrito de Bento Rodrigues, em Mariana/MG, foi o maior desastre ambiental do país (até 25/01/19), e um dos maiores causados pela mineração no mundo.

Era uma tragédia anunciada, por organizações socioambientais, promotores e procuradores de justiça, grupos de cientistas e comunidades, que vêm acompanhando o descaso das grandes empresas de mineração para com o meio ambiente, as águas e as populações ao redor.

Foi o resultado da irresponsabilidade e negligência das mineradoras, de corporações empresariais que fazem lobby pelo afrouxamento dos processos de licenciamento, e de autoridades governamentais e parlamentares que se submetem a este jogo, legislando e autorizando o licenciamento de centenas de barragens de rejeitos, o uso de água por minerodutos e a mineração sobre importantes aquíferos e mananciais para o abastecimento público das atuais e futuras gerações.

Mais de 40 milhões de metros cúbicos de rejeitos destruíram o Rio Doce e parte de seus afluentes, mataram 20 pessoas (incluídas duas crianças e um bebê em gestação) a também ecossistemas e milhares de peixes, afetando a vida de mais de um milhão de pessoas de cidades, comunidades e atividades rurais, pesqueiras, industriais e turísticas, inviabilizadas pela lama lançada sobre mais de 650 km de rios até o Oceano Atlântico. O povo Krenak ficou sem o Rio Watu, como chamavam o Rio Doce.

Minas Gerais está refém da mineração desde a época dos bandeirantes, há cerca de 400 anos. Essa atividade impacta gravemente as nossas fontes de água e essa questão não pode ser varrida para debaixo do tapete! As áreas de recarga, aquíferos e mananciais necessários ao abastecimento da população e também à manutenção da natureza e vida de agricultores e ribeirinhos e demais atividades econômicas são drasticamente destruídos ou poluídos, principalmente nos últimos 50 anos.

Paracatu, Itabira, Congonhas, Brumadinho e municípios ao longo da Serra de Itatiaiuçu já estão com falta de água ou problemas com sua qualidade devido à mineração. É irreparável o impacto ambiental e social causado pela mineração. Conceição do Mato Dentro e Riacho dos Machados são exemplos de como os empreendimentos de mineração em Minas Gerais são projetos de destruição socioambiental e violação de direitos, com benefícios insignificantes para o conjunto geral da população.

Neste cenário, as barragens de rejeito são altamente preocupantes, ainda mais que nos últimos 15 anos houve 7 rompimentos.

O Barragens Alerta é um espaço para visibilizar este tema.