Vale: 6 meses de dor, impunidade, crueldade e propaganda enganosa

Por Maria Teresa Corujo (Teca) – Ambientalista
(Movimento pelas Serras e Águas de Minas – MovSAM) – 25/07/2019

 

Acordei hoje com o peito apertado e nó na garganta. Sei que todos os dias após 25 de janeiro de 2019 foram de dor para quem perdeu seus entes queridos e que 6 meses é só mais um marco para lembrar. Continuo indignada e não me conformo com a impunidade, com o fato da empresa criminosa continuar trafegando por todos os espaços (com séquitos de advogados) controlando inclusive as cenas do crime.

Como se permite, desde o primeiro dia, que a Vale, que matou as pessoas, preste diretamente assistência às famílias e ainda faça propaganda sobre isso? É revoltante testemunhar a omissão ou conivência de diferentes atores e a forma respeitosa como autoridades tratam a empresa criminosa, que assassinou 248 pessoas, 2 bebês que não tinham ainda nascido e o rio Paraopeba, destruiu a captação de água da Copasa e colocou em grave risco o abastecimento da RMBH.

Na nova campanha publicitária, a Vale usa como um dos lemas “Sabemos que há muito a fazer e vamos continuar fazendo”, faz questão de ressaltar o “prestar contas” e até pede desculpas. Propaganda enganosa mais uma vez. A Vale regateia valores nas ações judiciais, sonega informações o tempo inteiro, manipula as pessoas para cooptar, dividir e silenciar através de diferentes estratégias que nada têm de ético, mantém sua prepotência e insensibilidade.

Nas suas barragens de rejeitos, que aterrorizam e adoecem milhares de pessoas na “Zona de Alto Risco de Morte” (Zona de Autossalvamento) mesmo sem terem rompido, tem posturas antagônicas. Em algumas, faz questão de provar que estão com estabilidade para suas operações continuarem, como em Itabira e na mina do Brucutu. Em outras, não cumpre os prazos estabelecidos para isso e realiza “obras emergenciais” que não fazem o menor sentido e estão causando gravíssimos impactos, como em Barão de Cocais, André do Mato Dentro (Santa Bárbara), Macacos (Nova Lima) e Itabirito.

Realmente a Vale sabe que há muito a fazer e continua fazendo. Mas claramente voltada somente aos seus interesses vorazes. A empresa tem um plano estratégico de negócios que nem a tragédia em Brumadinho, resultado do seu crime, altera. Por isso são capazes até de aproveitar economicamente a lama que destruiu vidas, mesmo com 22 corpos ainda não encontrados.

Já afirmaram que vão retomar a mina da Jangada, mesmo sabendo o quanto está perto de comunidades ainda em luto pelo rompimento e o quanto impacta a disponibilidade de água na bacia hidrográfica do rio Paraopeba. Pediram sigilo sobre seus direitos minerários. Compram propriedades para avançar com seus empreendimentos.

Não há marketing capaz de maquiar essas verdades. Porque elas estão impressas em cada homem, mulher, jovem e criança que vivenciou a verdadeira face da Vale, mesmo que permaneçam subjugados por um sistema político-econômico insustentável que continua destruindo vidas, meio ambiente e até a economia de Minas Gerais, capitaneado em especial por governantes, políticos e corporações como a FIEMG e o Sindiextra.

A Vale é mesmo um “monstro devorador”, como disse uma pessoa que deixou um depoimento no nosso Facebook, e conta com aliados em muitas instâncias e setores que, a meu ver, são cúmplices também do crime cometido por ela no dia 25 de janeiro de 2019.

Charge – Jorge Braga

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